Os Artistas



Hugo Richard

Sem título, 2009
Na produção de Hugo Richard podem ser destacadas questões e aspectos formais que aparecem em sua pintura e seus objetos, em momentos nitidamente marcantes, separadamente ou associados: o retrato, a sexualidade, a memória, a tradição; pessoas e situações que pertencem a contextos particulares e ao mesmo tempo universais.

Sempre direcionando sua pesquisa para o desenho e a pintura, com tela, papel ou louça como suportes, o artista materializa seu olhar e pensamento que recaem não somente sobre a figura humana, como também considera o ambiente e a história indissociáveis da imagem central.

Ao pintar retratos de artistas visuais importantes para a história da arte brasileira, Hugo cria um acervo de artistas, diretamente atrelado a um acervo de pintura, preenchido de sentidos e referências da arte.

Quando o artista faz a série de modelos, a pintura adquire uma potência ao escolher não a tela tradicional para suporte, mas tecido do lençol em toda a sua simbologia da sexualidade, da intimidade.

Em 2007 o artista inicia uma nova fase de sua produção ao utilizar a elementos do cenário residencial, familiar.

Sem título, 2001
Sintecos e louças passam a ser objetos constantes nesse período de produção do artista.

Mais recentemente, a dedicação de transpor fotografias de família para um jogo de louça completo possibilita a reunião, numa mesma obra, das lembranças da infância, da casa; a idéia de hierarquia familiar e costumes.

A louça, que até então possui um papel decorativo e de utilidade doméstica, reforça sua função ao mesmo tempo em que passa por mudanças de sentido. Como porta-retrato, como se houvesse um deslocamento do acontecimento diário para esse meio, o objeto vislumbra a possibilidade de ser outro num quadro que além de ser alterado, interfere nas relações, olhares e em novos significados do espaço.



Natali Tubenchlak

Devaneio poético dos momentos livres, 2009
Natali Tubenchlak faz pintura seja com a tinta propriamente dita seja quando usa partes inteiras de outros materiais. Faz experimentos. A artista provoca recortes, hibridismos e absurdos interligando figuras e histórias, inserindo não somente formas humanas em seu trabalho, mas também pessoas com nome e identidade.

A artista aproxima com sarcasmo personagens reais e imaginários com a estética de histórias infantis e quadrinhos. Um exemplo desta narração é a série de quadros em que retrata a cadela Dora (um alterego?) como um personagem que vive diversos enredos.

Com cor expressiva, de colorido contraditoriamente contido, além de formas muitas vezes grotescas e situações sombrias, Natali concebe a tela como suporte narrativo: irônicos e parcialmente macabros, seus quadros se ocupam da mitologia do doméstico, misturam bichos, gentes e corpos em jogo poético original, sem a menor culpa ontológica.

De sua formação em publicidade e design, observa-se o interesse pela pesquisa constante por novos materiais, que possam exprimir mais perfeitamente a cena criada pela artista. A busca pela diversidade de materiais para serem apropriados a cada novo objeto é característica muito típica do processo de criação de Natali, onde cada personagem requer um material próprio.

Na série “Ursos”, delicados ursinhos de pelúcia de uma conhecida marca de produtos de higiene infantil são “pintados” com cera de depilação carregada de pelos humanos. Neste trabalho, o conceito artístico da apropriação sustenta com ironia os conceitos do design de reaproveitamento, reciclagem e reutilização.

Sem título, 2009
Mais recentemente, a relação de Natali com a produção artística do carnaval carioca, provoca uma nova quebra de paradigmas de sua pintura. Além da influência direta dos elementos alegóricos, a submersão no mundo fantasioso das escolas de samba (onde tudo é possível), gera a reaproximação da artista com conceitos do desenho industrial, como o uso de materiais mais rudes e a extrapolação da bidimensionalidade, sem perder, jamais, sua essência de pintora.

A influência do carnaval é bastante evidente nos trabalhos de brilho excessivo, realizado com aplicação de lantejoulas, purpurinas, paetês e outros acessórios, que, além de sua própria composição, retratam cenas de uma sensualidade pernóstica, libidinosa. Uma relação entre a realidade e a fantasia, como todo o trabalho da artista.

Em suas últimas montagens, Natali transporta, com muita acertação, do objeto utilitário para o objeto de arte a marchetaria criando um contraste entre folheados distintos (madeira e pet), como em “Devaneio poético dos momentos livres”, de 2009.



Três figuras e a grande
lâmina (parte), 2009

O princípio da produção de Robson é o desenho. Que pode aparecer integrado à fotografia, transposto para a linguagem audiovisual ou associado a materiais industrializados, tendo como ponto de interesse central as recorrências ancestrais presentes nos costumes e objetos.

O desenho é a base de uma pesquisa que envolve formas corporais humanas – em alguns casos animais –, transfigurando-se em vegetais e estruturas abstratas que brotam e se agregam em movimento contínuo. Em sua série mais recente, Robson usa o desenho para alterar fotografias tiradas por ele mesmo registrando pessoas, coisas e situações pela cidade.

Sem título, 2008
A junção de elementos que circundam o universo visual em que está inserido, partindo de imagens objetivas (fotografias) e unindo-se aos absurdos sugeridos pelos desenhos, provocam estranhamento e conduzem a um pensamento sobre a condição do homem, o que ele carrega e o que o sobrecarrega.

O desenho à caneta transforma a fotografia que, deixando de ser mero retrato, torna visível ou transporta para ela a situação (ir)real da imagem.

Em outra série, considerando ainda formas orgânicas, Robson cria, com vinil adesivo sobre papel, formas humanas fragmentadas – por unirem-se ou afastarem-se; por estarem sob o efeito de sutis manipulações digitais ou outra roupagem especial. Com elementos que as caracterizam ou sem sinais aparentes de identidade, provocando certa ambiguidade nas representações de tempo-lugar contido nas imagens.

Mais sobre o trabalho de Robson em www.robsonsite.blogspot.com



Cadeira, 2009

A obra de Zé Carlos Garcia parte da manipulação de “corpos” prontos – não somente prontos, mas também mortos, estáticos –, sendo eles naturais ou artificiais, criando seres ou objetos até então inexistentes.

A “Cabeça de Porco” é o primeiro projeto do artista em que ele desenvolve a transmutação de uma forma natural.

As semelhanças físicas que fazem o Homem e o porco serem tão próximos, similares quanto à anatomia, como comprova a ciência, motivaram Zé Carlos a produzir o “Severino”, figura humana “horrorosa”, medindo 90 cm, resultado da intervenção com instrumentos cirúrgicos no corpo de um porco.

A possibilidade de alterar formas inicialmente estabelecidas apresenta também os insetos como objeto, criando um jogo de quebra-cabeça, de monta e desmonta; de pensar novas estéticas na natureza apropriada pela arte.

A estrutura física dos insetos é desmembrada e transformada. Seus membros, com suas cores e formatos, mudam de corpo formando novas espécies, novas imagens.

Cosmedamião, 2008
Já nas imagens religiosas, o artista brinca, experimenta e ousa interferir no sagrado, no imutável. O sagrado que não permite interferir na estrutura física de animais, mas que contraditoriamente autoriza que milhões deles sejam abatidos para o consumo do homem.

Lançando mão de sua vivência artística de mais de dez anos com o carnaval carioca, Zé Carlos mais recentemente passa a experimentar a construção de novos seres e objetos alterados, como observado na “Cadeira” e nos “Pássaros”. Utilizando adornos e fragmentos de móveis antigos e plumas e penas de carnaval, o artista cria híbridos com potência alegórica, sofisticação e beleza estética.

No porco, no inseto, nas imagens religiosas e, em seguida, nos pássaros e móveis, o artista sugere uma discussão tendo o corpo como mote – seja do animal, do homem ou da escultura – e a experiência como ação.

Mais sobre o trabalho de Zé Carlos Garcia em zecarlosgarcia.com.